Priscilla Porto em Viagens Literárias: Por que você não respondeu a minha mensagem?

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Instagram: @priscillaportoescritora

Daqui a alguns anos, esses dias, essa década ou esse século em que vivemos poderão compor um estudo de historiadores ou antropólogos como a “Era dos Pescoçus Dobradus”. (Aliás, vivemos, sobrevivemos ou “subvivemos”, atualmente, nessa era tão impessoal?)


Em tal estudo, poderão ser comparados, por exemplo – o ano de 2015 com o ano de 2019 – de uma forma assustadoramente díspar, ainda que em tão curto intervalo de tempo. Isso porque, houve um tempo em que as pessoas não eram tão ansiosas e dispersas e, na verdade, tinham tempo para alguma coisa, além de ficar olhando para uma telinha assustadoramente atraente, mas doentiamente viciante.

Tempo em que não havia problema algum em não atender o celular na hora exata em que tocasse – até porque os tais aparelhinhos já vêm providos da bina. Tempo em que não havia problema algum responder uma mensagem algum tempo depois, até mesmo no outro dia. E muito menos havia problema se a leitura da mensagem era confirmada ou não por dois simbolozinhos azuis – os quais na “Era dos Pescoçus Dobradus” tem gerado conflitos homéricos, iniciados com a famosa e insuportável pergunta: “Por que você não respondeu a minha mensagem?”.

Poderá constar no respeitável estudo que na Era que antecedeu a dos “Pescoçus Dobradus” a conversa pessoal ou in loco era configurada por: olhar nos olhos e prestar o mínimo de atenção no que o outro ser humano presente estivesse falando. Por vezes, pessoas mais tímidas ou não tão sinceras, podiam até não olhar nos olhos, mas ainda assim prestavam o mínimo de atenção no que o outro ser humano presente estivesse falando.

Mas uma das conclusões finais do estudo sobre a letárgica “Era dos Pescoçus Dobradus” pode ser que – além de sérios problemas de saúde e psicológicos que boa parte dos seres humanos adquiriram devido ao uso excessivo das tais telinhas assustadoramente atraentes, mas doentiamente viciantes – ocorreu a extinção de importante meio de interloução humana. Isso porque a conversa pessoal ou in loco, o famoso tête-à-tête, justamente entre os anos de 2015 e 2019, caiu em completo desuso, e por fim se extinguiu. Talvez, infelizmente, para nunca mais voltar.

Priscilla Porto: Jornalista e autora dos livros “As verdades que as mulheres não contam” e “Para alguém que amo – mensagens para um pessoal especial”.